Queimaduras nos coxins de cães aumentam no calor e podem causar complicações graves

23 de Fevereiro, 2026 Queimaduras nos coxins de cães aumentam no calor e podem causar complicações graves

As queimaduras de coxins em cães representam uma afecção relevante na rotina clínica, especialmente em períodos de altas temperaturas. Embora muitas vezes subestimadas, essas lesões podem evoluir rapidamente, comprometendo a locomoção e demandando intervenções prolongadas quando não manejadas de forma adequada.

Segundo Nathalia Villaça Xavier, médica-veterinária e docente do curso de Medicina Veterinária do Centro Universitário Max Planck (UniMAX Indaiatuba), o contato direto com asfalto quente, concreto e outras regiões superaquecidas é suficiente para provocar danos importantes aos coxins em poucos segundos de exposição.

“Essa exposição provoca desnaturação de proteínas estruturais da epiderme e da derme, levando à necrose celular. Paralelamente, ocorre comprometimento da microcirculação local, inicialmente marcado por vasodilatação e aumento da permeabilidade vascular, seguido por trombose capilar, isquemia e progressão da lesão”, explica Nathalia.

Além disso, a docente conta que essa ruptura da barreira cutânea favorece a perda de fluidos, inflamação intensa e contaminação bacteriana secundária, especialmente quando há lambedura da região afetada.

“O dano às terminações nervosas explica a dor acentuada observada na maioria dos quadros, enquanto os machucados mais profundos podem cursar com diminuição ou até perda da sensibilidade local”, completa a médica-veterinária.

Fatores de risco e superfícies mais envolvidas

Entre os animais mais suscetíveis às queimaduras de coxins estão: cães de grande porte e braquicefálicos, devido à menor eficiência na dissipação de calor corporal e à maior carga mecânica exercida sobre as patas.

Já os pets mais jovens apresentam epiderme delgada e menos resistente, enquanto cachorros geriátricos costumam ter alterações vasculares e menor capacidade de regeneração tecidual.

“A condição corporal também exerce influência direta, já que a obesidade eleva a pressão sobre os coxins e reduz a tolerância ao calor. Além disso, o tempo de exposição e a intensidade da atividade física são determinantes, sobretudo em caminhadas prolongadas, corridas ou exercícios repetitivos”, explica Nathalia.

Entre os pisos mais associados às lesões térmicas estão asfalto, concreto, superfícies metálicas e pisos sintéticos, especialmente quando expostos à radiação solar direta, em ambientes com pouca ventilação e durante horários de pico solar.

Classificação clínica e sinais de alerta

Do ponto de vista clínico, as queimaduras de coxins podem ser classificadas de forma semelhante às cutâneas. As lesões de primeiro grau caracterizam-se por eritema, edema discreto e incômodo grande à palpação, sem ruptura da epiderme.

Já as de segundo grau envolvem comprometimento mais profundo, com formação de bolhas, erosões ou ulcerações superficiais, exsudação e dor intensa.

“As queimaduras de terceiro grau cursam com necrose tecidual profunda, coloração esbranquiçada ou enegrecida dos coxins, perda parcial ou total da sensibilidade e, em alguns casos, exposição de tecido subcutâneo”, diz a médica-veterinária.

Entre os sinais clínicos que devem alertar para lesões mais graves ou complicações estão: claudicação intensa, incapacidade de apoio do membro, progressão da necrose, presença de exsudato purulento, odor fétido, dor persistente ou desproporcional ao aspecto inicial da lesão, além de manifestações sistêmicas como febre, apatia e anorexia.

Abordagem inicial e condutas terapêuticas

O atendimento inicial, segundo Nathalia, deve incluir resfriamento local com água corrente fria, não gelada, por aproximadamente 10 a 20 minutos. Em seguida, é fundamental avaliar cuidadosamente a profundidade e a extensão das lesões.

Na sequência, deve ser feita uma analgesia adequada, preferencialmente por meio de abordagem multimodal, o que é indispensável.

“A limpeza deve ser realizada de forma suave, utilizando soluções isotônicas ou antissépticos de baixa citotoxicidade. Curativos protetores, acolchoados e não aderentes ajudam a reduzir dor, contaminação e novos traumas”, conta a professora.

Importante informar que a antibioticoterapia sistêmica não é indicada na rotina, devendo ser reservada para quadros com sinais clínicos de infecção secundária ou lesões profundas.

Entre os principais erros a serem evitados estão: o uso direto de gelo sobre os coxins, a aplicação de substâncias caseiras ou produtos de uso humano, o atraso na busca por atendimento veterinário e a manutenção da deambulação sem proteção adequada.

Complicações e prevenção a longo prazo

Nathalia ainda faz um alerta: quando não tratadas corretamente, as queimaduras de coxins podem evoluir para infecções bacterianas secundárias, como celulite e pododermatite profunda.

“A dor pode se tornar crônica, associada à hipersensibilidade persistente ou, em casos mais graves, à neuropatia periférica. Alterações no processo cicatricial podem resultar na formação de tecido fibroso rígido, com perda da elasticidade dos coxins e comprometimento funcional, levando a distúrbios permanentes da locomoção e claudicação crônica”, explica a docente.

Já em situações severas, pode ser necessário desbridamento cirúrgico extenso ou amputações digitais. Em conclusão, a prevenção depende, principalmente, da orientação adequada aos responsáveis.

“Evitar passeios entre 10h e 17h, realizar o teste da temperatura do solo com o dorso da mão ou o pé descalço, priorizar superfícies naturais e reduzir a intensidade das atividades físicas em dias quentes são medidas essenciais, sobretudo para animais jovens, idosos, braquicefálicos e obesos”, finaliza a profissional.

FAQ sobre queimaduras de coxins em cães

Quanto tempo de contato com o asfalto quente é suficiente para causar as lesões?

Essa superfície pode provocar desnaturação de proteínas da pele em poucos segundos de exposição, especialmente em dias ensolarados.

Quais são os primeiros cuidados ao suspeitar de queimaduras nos coxins?

O manejo inicial deve incluir resfriamento local com água corrente fria (não gelada) por cerca de 10 a 20 minutos, seguido de avaliação veterinária para verificar a profundidade e a extensão dos machucados.

Todo cão com essa lesão precisa usar antibiótico sistêmico?

Não. A antibioticoterapia sistêmica não é indicada de forma rotineira e deve ser reservada apenas para casos com sinais clínicos de infecção secundária ou lesões profundas.


Fonte: Cães e Gatos

Imagem: Canva